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Domingo, 01 de Novembro 2026
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Eleger Lula não basta: “Se não radicalizar a gente não sobrevive”, diz editor do Revelando

Editor-chefe do canal Revelando fala sobre os bastidores e o papel do jornalismo para a mobilização social nas eleições

Portal MAM News
Por Portal MAM News
Eleger Lula não basta: “Se não radicalizar a gente não sobrevive”, diz editor do Revelando
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A disputa presidencial no Brasil chegou ao fim, no último domingo (25), com a quarta vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Lula venceu o segundo turno das eleições e foi reeleito com a maior votação já obtida por um candidato à Presidência, com 64.256.232 votos – 51,79% dos votos válidos contra 48,21% obtidos pelo adversário, Flávio Bolsonaro (PL).

“O que a sociedade brasileira foi capaz de fazer no último domingo foi a salvação do nosso sistema democrático”, afirma o editor-chefe do canal Revelando, Bruno Torturra, convidado do Pauta Pública desta semana.

A disputa foi marcada pela intensa mobilização nas redes socias e nas ruas contra o bolsonarismo. Além disso, também foi fundamental o papel do jornalismo e do combate à desinformação, muitas vezes por meio de novos formatos e narrativas que se adaptaram à lógica dos algoritmos para jogar luz sobre histórias que a campanha de Flávio Bolsonaro escondia.

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O canal Revelando, lançado em setembro, produz reportagens e investigações jornalísticas em formato de documentário. Em conversa com Andrea Dip, Torturra fala sobre a iniciativa, analisa o cenário político pós-eleições, e destaca como a mobilização em torno da vitória de Lula representa também um desfecho biográfico significativo para o presidente e uma tomada de consciência cívica.

Para o jornalista, no entanto, a esquerda precisa ir além da resistência e articular ações de longo prazo capazes de propor avanços: “Se a gente não radicalizar a gente não sobrevive, isso aí não tem a menor dúvida.”

Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 240 Uma eleição cronicamente online — com Bruno Torturra

30 de outubro de 2026 · Editor-chefe do canal Revelando fala sobre os bastidores e o papel do jornalismo para a mobilização social nas eleições

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Como você avalia esse momento pós-eleições, depois dessa gigantesca mobilização? Tem precedentes?

Foi uma manifestação histórica. A sociedade brasileira foi capaz de fazer no domingo de eleições. Acho que tem um significado nacional gigantesco, uma salvação do nosso sistema democrático, um desfecho biográfico muito bonito para o presidente Lula. É uma mobilização, uma tomada de consciência cívica, já vi várias desse tipo na minha vida, mas nunca com esse foco, com essa clareza, vontade e gana.

E com um significado mundial também muito grande. Acho que não é à toa que a gente tá vendo gringo chorando em todo o país do mundo, uma doideira, justificadamente. A gente deu uma demonstração muito linda, mesmo, de como é que se faz para derrotar – não digo nem só a extrema direita fascista que o Flávio, de certo, representa, mas até a tecno-oligarquia, a nova utopia antidemocrática desses mesmos oligarcas, o que a digitalização da nossa vida pública representa. Então, foi uma vitória colossal.

O Trump falou hoje que ele acha que as eleições brasileiras foram manipuladas. E eu concordo com ele: elas foram, e a gente ganhou mesmo assim. A gente ganhou apesar da manipulação, não é pouca coisa o que aconteceu. E também do ponto de vista emocional – que é uma parte crucial da política que, às vezes, a gente desmerece – mas o meu coração, e acho que o coração de todo mundo que entendeu o que estava em jogo, está descarregado. Ele continua batendo forte e eu continuo emocionado, mas agora é com mais serotonina e dopamina.

Na questão da mobilização, fortificada pelo jornalismo independente, o Revelando se destacou como um dos veículos mais importantes. Sobretudo, porque a gente também viu esses boicotes dos Estados Unidos, das Big Techs e da grande imprensa. Então, queria te ouvir sobre o formato muito acertado do Revelando e qual foi o papel do jornalismo independente nesse processo?

Antes de qualquer coisa eu queria valorizar o trabalho do jornalismo tradicional brasileiro, que foi no qual nós nos embasamos para fazer o Revelando. Nós tivemos muito pouca apuração própria, no sentido de que não tivemos nenhum grande furo de reportagem nem dados inéditos. Mas o que a gente fez, e que é algo que a gente tinha uma escola muito interessante no Greg News e também no Calma Urgente, que é algo que o jornalismo tradicional tem muita dificuldade de fazer – porque eu acho que ele é um pouco preso no formalismo temático.

O jornalismo se entende como uma forma, e eu acho que isso é um problema do nosso campo, especialmente num mundo saturado de mídia. A gente tem que se apegar em uma ética e não em uma estética. Então, o que a gente fez, na verdade, é tentar pegar tudo o que a imprensa apurou e não narrar fatos avulsos, mas mostrar que isso faz parte de uma história, que tem um arco, que esses fatos montam uma cena muito mais complexa.

Eu também acho que a gente vive numa época midiática pós-jornalística, em que o jornalismo é um gênero quase periférico do tanto de mídia que é consumida. E isso é uma coisa muito perigosa: viver numa época pós-jornalística.

Então, o que a gente fez – muito intencionalmente – foi usar todos os recursos midiáticos pós-jornalísticos que tínhamos, que são muito bem-sucedidos: o uso de pessoas famosas, o uso tático de rede social, uma dinâmica que mistura um pouco de entretenimento, um pouco de humor, um pouco de emoção, um pouco de raiva, trilha, gráficos e tudo mais.

Economia de atenção, mas com o núcleo jornalístico forte, intacto. A gente não estava atrás da mera atenção dele, a gente realmente acredita na capacidade crítica de quem está nos vendo. É usar a desgraça dos algoritmos que nos sequestraram para entregar um pouco do que o algoritmo pede mas com um conteúdo que o algoritmo não encoraja. Sabíamos que ia dar meio certo, a gente apostava no projeto, sem dúvida nenhuma, mas eu te digo, a gente não imaginava que ia dar tão certo, que ia ser um impacto tão grande quanto teve.

Sobre o jornalismo independente, e a Pública é tipo um farol disso, a gente está há muitos anos na fronteira do jornalismo independente digital, acreditando que é possível ter um outro modelo de negócio e que a gente é capaz de investigar e de divulgar isso. Mas eu realmente acredito, sem exagerar, que essa eleição, eu espero, tenha sido um ponto de inflexão mesmo nessa questão. Acho que o que ficou muito claro nessas eleições é que nós estamos conseguindo atingir números de mainstream, impactos de mainstream, e a mídia industrial está se tornando uma mídia meio vorcarista, que foi outro grande escândalo.

A gente achava que os interesses comerciais, organicamente eles têm um viés natural, mas a gente vai vendo que os patrocinadores hoje em dia estão editando matérias. Isso é uma quebra da separação entre comercial e editorial que o nosso campo não tem. Então, eu acho que o público precisa entender que essa independência é de interesse econômico, a gente deveria buscar comunicar isso melhor.

Acredito que o jornalismo bem feito – mesmo de veículos mais convencionais – que tomou consciência do que estava em campo e entendeu que isenção, mera isenção, era uma inércia para o abismo. Assim, o trabalho que a gente fez como classe, como categoria, foi indispensável para o Flávio perder.

Os argumentos que foram apresentados, todas as investigações pegaram um público que a consome. O fato do Flávio ser um criminoso, um representante do crime, miliciano, ter defendido o assassino de uma menina de cinco anos de graça e uma série de outras coisas, escorreu para a sociedade toda. Essa consciência foi escorrendo a boca entre as pessoas que estavam mais preocupadas, na psicose política máxima, ao trabalhador que na reta final escutou a história da Ana Clara, escutou a relação com a milícia, ficou sabendo do Willer Tomaz – e foi um trabalho que a mídia de massa se recusou a cumprir. Então, eu tô muito feliz de estar junto desse campo, de estar desse lado.

Uma tecla que vocês bateram várias vezes foi a importância de falar mais sobre o Flávio, de manter a bola no nosso campo. O Janones também enfatizou para parar de pautar a campanha em se defender de fake news – e o exército é outra coisa que vai ser estudada por muitos anos. Bom, sabemos que a extrema direita se organizou sempre muito bem nesse ecossistema digital, será que a esquerda finalmente aprendeu a jogar o jogo da internet na internet nessa campanha?

Eu tenho uma resposta um pouco polêmica em relação a isso, acho que a gente aprendeu a fazer uma guerrilha muito eficaz, um super exército, mas é em um campo inimigo. Não acho que a gente deva contar que o Janones, o Revelando e todo mundo, aprendeu a jogar o jogo das redes sociais e agora a gente vai disputar de igual para igual, porque isso não é sustentável, dentro do desenho de código e de modelo de negócio que é a infraestrutura do terreno online.

Eu temo que o nosso campo vá se deslumbrar com o sucesso e achar que a gente aprendeu a jogar o jogo da extrema direita. Porque se for olhar os exemplos dos caras que dominaram a comunicação: Carlos Bolsonaro, Lucas Pavanato, Nikolas Ferreira. Com todo respeito, esses caras não são grandes estrategistas, não são homens inteligentes, não são pessoas que estudam comunicação, eles nunca ouviram falar de nada de comunicação, não tem nem a primeira aula do curso. Eles são muito mais produtos de um ecossistema tóxico, onde gente tóxica tem vantagem e mentira e picaretagem, simplificação e ódio leva a vantagem programaticamente, dentro do programa digital mesmo.

Tudo isso para falar que a gente tem uma missão nos próximos quatro anos do governo Lula e eu espero de coração que não só a gente saiba argumentar isso com muita qualidade, mas, sobretudo, a burocracia do governo, os ministros, o PT se abra para entender o que a gente está falando e compre essa briga de verdade. Agora a gente luta com a constituição em uma mão e o código livre na outra. Não adianta segurar só uma lei analógica, sem reprogramar o código digital de onde a democracia vai operar.

O que acontece é que a gente vive em um espaço público privatizado na internet, e não só é privatizado, como antidemocrático, antirepublicano, e declaradamente atendendo os interesses dos Estados Unidos, piorado nos interesses do Donald Trump. Então, o que a gente precisa fazer aqui não é contar com o exército do Lula no WhatsApp, porque é uma questão de tempo, que isso pode não só ser desativado, mas a dinâmica de missão e ficar na tela não é sadia para a gente.

No Revelando, estamos discutindo internamente o que fazer sobre isso, porque dependeu 100% do Instagram e do YouTube para fazer o que a gente fez. De hoje em diante, queremos que o Instagram e o nosso canal de YouTube sejam a ponta de um iceberg de uma comunidade em que a gente se conhece, tem o telefone, onde a gente tem o controle democrático dos nossos seguidores, que podem conversar entre si. Então, honestamente, que bom que a gente fez o que a gente fez. Mas a gente operou em campo inadequado para o tipo de projeto que temos na mão. Para os caras ganharem a próxima ou mexerem um pouquinho melhor no algoritmo é uma questão de semanas.

Outro aspecto que tem sido comentado é a “falta de imaginação”. Como diz Paulo Demuro, a esquerda parou de imaginar um futuro, de encantar, e virou conservadora – no sentido de que temos que conservar as instituições, a democracia e, também, temos que nos defender dessas informações falsas. O que você pensa sobre isso?

A gente está conservador e tem até um termo de esquerda que eu acho muito conservador, mas que passa despercebido porque é bonito, é guerrilheiro e tudo mais: chama “resistência”. Nós somos a “resistência”.

Mas a resistência é uma posição conservadora de algum jeito, porque você não está avançando, você está segurando o que tem. E eu entendo perfeitamente, de fato. Eles estão querendo ir atrás dos direitos de todo mundo, das mulheres, dos indígenas, das florestas, mas a resistência também é uma posição insustentável no longo prazo. Ela precisa ser de curto prazo para você conseguir invadir o campo inimigo e ir para cima dele, e, para isso, você precisa de ousadia, imaginação e ambição.

Isso é uma coisa que eu acho que o PT mesmo, e a nossa esquerda viável politicamente – a esquerda que a gente é capaz de se eleger hoje no país – é muito pouco ambiciosa, muito pouco ambiciosa. Ela se conteve num lugar muito estreito de possibilidades e o mundo não permite mais isso. Não permite nem do ponto de vista ecológico. Se a gente não radicalizar, a gente não sobrevive, isso aí não tem a menor dúvida.

Mas o que me angustia – e o Mark Fisher lia muitíssimo bem – é a nossa incapacidade. A gente se remete muito ao passado, mas não imagina muito bem o futuro e eu acho que isso piorou. Até acho que nem ao passado somos mais capazes de nos remeter tanto; a gente se remete meio que ao último meme, ao último mês, ao último ano, porque em 2011, 2012, até essa data, a internet era um lugar mais aberto. O que a web era capaz de oferecer era muito distinto do que a timeline é capaz de oferecer.

FONTE/CRÉDITOS: Andrea DiP

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