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Quarta-feira, 29 de Julho 2026
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O dia em que escapei de um atentado na parada LGBT+ em Berlim

Atentado foi instrumentalizado pela direita para atacar comunidade muçulmana

Portal MAM News
Por Portal MAM News
O dia em que escapei de um atentado na parada LGBT+ em Berlim
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Confesso que escrevo essa coluna com um nó na garganta e os sentimentos ainda misturados. Fazia um sábado lindo de sol em Berlim, 25 de julho. A cidade estava cheia para a Christopher Street Day Pride, a parada LGBT+ da capital alemã. O evento se chama Dia da Rua Christopher e é realizado anualmente em memória dos motins de Stonewall, que começaram num bar localizado na Christopher Street, em Nova York, em 1969, onde a comunidade LGBT+ se rebelou contra a repressão policial. Os números oficiais falam entre 700 mil a um milhão de pessoas nas ruas.

No dia anterior, eu havia trocado mensagens com meus amigos: “Vamos na Pride? Celebrar enquanto a gente ainda pode?” Com o avanço das pautas antigênero no mundo, mesmo em uma das cidades mais progressistas do mundo atualmente, como Berlim, se sente uma mudança nos ventos.

Me lembro que, quando vim morar aqui para estudar, uma das coisas que mais me fazia feliz era poder andar na rua sozinha de madrugada, independente da roupa, independente do bairro, da baixa iluminação das ruas, passar por debaixo de pontes, entrar em becos. Para uma mulher que passou boa parte de seus 40 anos vivendo em São Paulo lidando com assédio e medo constantes, isso era libertador.

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Mas, justo no dia da Pride, pela primeira vez em 4 anos, eu decidi colocar um casaco fechado para voltar sozinha pra casa, à noite. E nem estava tão tarde. Meus amigos estranharam. Eu disse que não ando me sentindo mais tão segura.

É claro que isso não vem do nada. Meu trabalho é acompanhar as pautas e os desdobramentos das narrativas antigênero. Tenho visto, pouco a pouco, os políticos alemães aderindo ao que chamam de movimento “anti woke”, votando para retirar direitos da comunidade LGBT+ (inclusive por parte da co-líder do partido de extrema direita AfD, Alice Weidel, que é casada com uma mulher, mas nega ser homossexual), ao mesmo tempo em que defendem que a violência de gênero no país é causada única e exclusivamente por imigrantes, sobretudo por muçulmanos.

Recentemente, infiltrada em um congresso do partido Alternative für Deutschland (AfD), que já teve alguns de seus membros declarados neonazistas pelos serviços de inteligência nacionais, eu recebi logo na entrada uma pasta contendo um ranking, com o nome de países e a porcentagem de crimes cometidos na Alemanha por cidadãos dessas nacionalidades. O documento não indicava nenhuma fonte das informações e os números são contestados largamente por pesquisadores. Mas, no telão do evento, em looping, apareciam fotos de homens com nomes de origem árabe, junto a supostos crimes horrendos cometidos. “Fulano: estupro”, etc.

Não dá pra não lembrar um passado não tão distante.

Pessoas queer próximas a mim também têm sido hostilizadas nas ruas, sobretudo imigrantes. Recentemente, um amigo filipino foi provocado por um grupo de adolescentes alemães em um bar, apanhou e, quando a polícia chegou, levou apenas ele preso. Ele foi solto, mas ainda está sendo processado, o que complica seu pedido de visto.

Durante a parada LGBT+ no sábado, as ruas estavam coloridas, ocupadas por corpos dissidentes e diversos caminhando lado a lado, dançando; vi muitas crianças, bebês de colo, mulheres grávidas, todos se respeitando e se cuidando.

O slogan da marcha era “Haltung ist hot” (algo como “tomar uma posição é sexy”). Mais de 80 carros, representando órgãos oficiais, partidos políticos, organizações da sociedade civil e marcas, desfilaram essa bandeira.

Várias marchas acontecem simultaneamente na cidade. A CSD é a maior e mais comercial, mas existem também atos paralelos, independentes e autogestionados, com pautas políticas mais demarcadas, contra a xenofobia, contra o genocídio em Gaza, que não raramente sofrem repressão policial.

Por volta das 20:30, eu e meus amigos nos sentamos para descansar no Tiergarten, um parque grande que fica próximo ao fim da parada que acontece no portão de Brandemburgo. Decidimos ir embora para evitar o metrô lotado. Nos despedimos como sempre: “Manda uma mensagem quando chegar em casa”. Cheguei em casa, vi um filme e fui dormir. Os amigos foram pra outras festas. Acordei no domingo com dezenas de mensagens e ligações perdidas na madrugada.

As ligações eram de uma amiga que foi perseguida e assediada por um homem a poucos quarteirões de seu apartamento. Ela está bem. As outras mensagens foram de pessoas me perguntando se eu estava bem, se tinha visto o que havia acontecido. 

Só então descobri que pouco mais de uma hora depois que deixamos o parque, um rapaz de 21 anos, Abdul Ballout, havia jogado o carro contra a multidão naquele mesmo lugar, esfaqueado pessoas e fugido. Uma mulher morreu. 29 pessoas ficaram feridas. 

Na manhã de domingo, as redes sociais já estavam inundadas de imagens, mensagens de solidariedade, a imprensa reforçava o fato de ele ser um menino de origem libanesa. Políticos como o ministro do Interior alemão, Alexander Dobrindt, declaravam que havia sido um ataque terrorista islâmico. Ballout conseguiu fugir, mas foi capturado e morto pela polícia algum tempo depois. 

Na tarde do domingo, durante uma missa em memória das vítimas na Igreja de Santa Maria (Marienkirche), perto do famoso Portão de Brandemburgo, o chanceler Friedrich Merz declarou: “Faremos tudo para proteger a liberdade do nosso país e da nossa sociedade. Tudo!”. Vale lembrar que Merz, que é do partido Conservador Cristão CDU, se opôs à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Alemanha, introduzida em 2017. Em 2020, ele fez um pedido de desculpas não convincente, dizendo que “lamentava” ter ofendido pessoas após sugerir que a homossexualidade não seria um problema se “não afetasse crianças”.

Apesar de demonstrarem pouca simpatia pelas causas LGBTQ+, figuras da extrema-direita também se aproveitaram rapidamente do incidente para apoiar sua agenda anti-imigração. Martin Hess, deputado do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), denunciou o ataque como resultado de “um completo fracasso das políticas de segurança do governo”.

Também no domingo, 10 mil pessoas se reuniram para homenagear as vítimas e para dizer com todas as letras que a comunidade queer não admitirá que esse terrível ataque seja instrumentalizado pela extrema direita para justificar medidas xenofóbicas. 

Sim. Abdul Ballout era conhecido da polícia, chegou a ser preso em novembro de 2025 ao retornar ao aeroporto de Berlim, teoricamente após tentativas frustradas de se juntar à organização terrorista Estado Islâmico (EI) na Síria. Após um longo período em prisão preventiva, foi condenado em 12 de maio por um tribunal do Distrito de Tiergarten a 22 meses de detenção juvenil, entre outras coisas, por planejar um grave ato de violência, mas estava solto. Sim. Vários países de maioria muçulmana, com governos ou grupos fundamentalistas, aplicam punições duras, incluindo pena de morte, contra a homossexualidade.

No início da semana, a imprensa alemã noticiou sobre uma gravação encontrada no telefone de Ballout, em que um homem mascarado, supostamente o rapaz de 21 anos, reivindicava a autoria do ataque e jurava lealdade ao Estado Islâmico. O Estado Islâmico não reivindicou publicamente a autoria do ataque.

Mas, como dizia o manifesto de uma organização queer, Ballout era alemão. Nasceu e cresceu na Alemanha. Se radicalizou na Alemanha. Os números de violência contra a comunidade LGBT+ só aumentam no mundo, e não apenas por parte de ultra religiosos radicalizados – na coluna anterior falávamos sobre o crescente culto à macheza vindo de diferentes fontes.

Eu me solidarizo com as vítimas desse atentado terrível, me assusto com o fato de que poderia ter sido eu ou uma pessoa querida ali.

Mas assino embaixo de manifestos feitos pela comunidade queer, que dizem que não é com a morte de um rapaz de 21 anos radicalizado que a violência contra a população LGBT+ vai acabar. As condições que produzem a violência e a radicalização continuam intactas. Uma pessoa morta pela polícia não vai deixar nossa comunidade segura. E nossa comunidade não vai ser instrumentalizada quando somos atacados.

Precisamos de um mundo em que as pessoas não sejam abandonadas até se tornarem um perigo.

FONTE/CRÉDITOS: Andrea DiP

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