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Sexta-feira, 11 de Setembro 2026
Saúde

Suicídio: estamos prevenindo tarde demais?

No Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, é preciso refletir sobre o momento em que a prevenção deve começar. Leia mais no artigo da psicóloga Karen Scavacini. The post Suicídio: estamos prevenindo tarde demais? first appeared on Portal Drauzio Varella.

Portal MAM News
Por Portal MAM News
Suicídio: estamos prevenindo tarde demais?
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No dia 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, seguimos sob o tema proposto pela International Association for Suicide Prevention (IASP), “Changing the Narrative on Suicide”, ou “Mudando a narrativa sobre o suicídio”. Gosto dessa proposta porque ela nos convida não apenas a falar mais sobre o tema, mas a rever a forma como entendemos a prevenção e, principalmente, o momento em que ela começa.

Mudar a narrativa também significa enfrentar o estigma que ainda cerca o comportamento suicida e rever a maneira como comunicamos sofrimento, crise e recuperação. Durante muito tempo, o suicídio foi tratado com silêncio, medo, julgamento ou simplificações, e ainda hoje certas formas de falar podem reforçar vergonha, culpa e isolamento. Uma comunicação responsável não serve apenas para evitar danos, mas também para ampliar compreensão, mostrar que crises podem mudar e tornar mais possível reconhecer sofrimento e buscar ou oferecer ajuda.

Durante muitos anos, avançamos na identificação de fatores associados ao comportamento suicida, como tentativas anteriores, transtornos mentais, história familiar, experiências traumáticas, perdas, isolamento social, uso de substâncias e dificuldades financeiras. Esse conhecimento continua sendo fundamental, mas talvez esteja na hora de acrescentarmos outra pergunta: será que estamos começando a prevenir o suicídio tarde demais?

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Sabemos que uma crise suicida não surge do nada, mas também não existe uma sequência igual para todas as pessoas. Algumas vulnerabilidades podem estar presentes há muitos anos, enquanto perdas, violência, isolamento, dificuldades financeiras, adoecimento ou outras experiências podem se somar ao longo do tempo. Olhar para essa trajetória não significa tentar prever quem vai tentar o suicídio, algo que ainda não conseguimos fazer com segurança, e sim perguntar se nossa prevenção precisa começar muito antes de uma crise se tornar evidente.

Isso muda bastante a maneira como pensamos o cuidado. Prevenir não é apenas reconhecer sinais de risco e agir quando alguém já está em sofrimento intenso, embora isso continue sendo indispensável. Também é fortalecer vínculos, reduzir situações de violência e exclusão, apoiar pessoas depois de perdas importantes, cuidar de quem vive sofrimento persistente, ampliar o acesso aos serviços de saúde mental e criar ambientes nos quais pedir ajuda seja possível antes que tudo pareça insuportável.

Sou psicóloga, mestre em saúde pública, doutora em psicologia, trabalho há mais de 25 anos com saúde mental e fundei o Instituto Vita Alere há mais de uma década. Ao longo desse percurso, acompanhando pessoas em sofrimento, familiares, pessoas enlutadas, profissionais, escolas, empresas e comunidades, uma coisa ficou cada vez mais clara para mim: a prevenção raramente começa no momento da crise e certamente não termina nele.

Essa reflexão também nos obriga a rever uma das mensagens mais repetidas quando falamos sobre suicídio: “peça ajuda”. A frase é importante, mas insuficiente. Se queremos que alguém peça ajuda, precisamos perguntar que ajuda estará disponível quando isso acontecer. Existe alguém preparado para escutar? Há acesso a cuidado? A escola sabe como agir? A empresa tem um fluxo para situações de sofrimento intenso? O serviço de saúde consegue acolher e continuar acompanhando essa pessoa depois de uma emergência?

Colocar toda a responsabilidade sobre quem está sofrendo é uma forma muito limitada de pensar prevenção. A responsabilidade também está nas relações, nos serviços, nas políticas públicas, nos ambientes de trabalho, nas escolas, nas famílias e na capacidade das comunidades de perceber o sofrimento e responder a ele.

No Brasil, essa discussão ganha uma importância especial porque grande parte da atenção sobre prevenção do suicídio ainda se concentra em setembro. A visibilidade pode inclusive ser gatilho para pessoas em sofrimento ou que perderam alguém dessa forma e a quantidade de campanhas, palestras e postagens realizadas em algumas semanas não pode ser confundida com prevenção. Se uma escola fala sobre saúde mental em setembro, mas não sabe o que fazer quando um aluno manifesta risco em abril, algo está faltando. O mesmo vale para empresas, serviços de saúde, universidades e tantas outras instituições.

Mudar a narrativa sobre o suicídio talvez signifique justamente ampliar nossa noção de prevenção. Não apenas agir diante da crise, mas compreender o que aconteceu antes dela e quantas oportunidades de cuidado podem existir ao longo desse caminho.

Depois de tantos anos dizendo que precisamos começar a conversa, talvez seja hora de acrescentar uma nova pergunta: quanto antes da crise podemos começar a prevenir?

Veja também: Panorama da saúde mental no Brasil – DrauzioCast #268

 

Se você está passando por um momento difícil ou preocupado com alguém, existem diferentes caminhos de ajuda. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia. Para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos, o Pode Falar oferece escuta online, gratuita e anônima. O Mapa da Saúde Mental reúne serviços públicos, gratuitos e de valor social em todo o Brasil, ajudando a localizar diferentes formas de cuidado em saúde mental. O Instituto Vita Alere também oferece informações, orientação, grupos de apoio e atendimento especializado em prevenção e posvenção do suicídio. Em uma situação de risco imediato, procure um serviço de urgência ou acione o SAMU pelo número 192.

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FONTE/CRÉDITOS: Karen Scavacini

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