Cícera Munda, 49 anos, nasceu em Tauá, no Ceará. Mudou-se para Fortaleza para fazer o ensino médio, como era costume por lá, e ficou na capital por cerca de quatro anos. Quando voltou para sua terra natal, Cícera descobriu que uma conhecida, que trabalhava como Agente Comunitário de Saúde, estava afastada por problemas de saúde. Portanto, uma vaga estava disponível para a função, justamente na região onde morava, a zona rural de Tauá.
Cícera se inscreveu para a vaga, foi selecionada e trabalha como agente de saúde desde abril de 2000. “Quando abre a vaga para agente de saúde, você tem que morar naquele determinado local que está abrindo vaga. Tem que morar naquele território já”, disse.
Rotina de trabalho e queixas de saúde
De lá para cá sua rotina não mudou muito, mas as queixas e questões de saúde se transformaram radicalmente. “Quando entrei tinha cerca de 15 gestantes no meu território e 35 crianças para pesar, conferir vacina, ver o estado de saúde daquelas crianças. Atualmente, acompanho uma gestante e nove crianças.”
Antes eram muito comuns doenças ligadas a verminoses, desnutrição e diarreia, o que invariavelmente se conectava a uma alta mortalidade infantil. Isso ficou no passado. Os problemas mais comuns agora são diabetes e hipertensão. Depressão e ansiedade também.
Outra mudança foram os profissionais da atenção primária. No início era apenas médico e enfermeira que apareciam a cada três meses. Hoje, há médicos, enfermeiras, dentistas, psicólogos, nutricionistas e fisioterapeutas nos postos de saúde. E agentes como Cícera usam um aplicativo para monitorar visitas e questões de saúde de cada família.
“Às vezes tenho que sair às 7h, quando é mais distante. Aí quando não, saio às 7h30 ou 8h da manhã. É que onde moro é uma comunidade com 40 famílias, e são famílias muito vulneráveis, então começo pela minha área antes de me deslocar para outras. Não é um trabalho fácil, mas é muito prazeroso. Porque o trabalho do agente faz parte do dia a dia das pessoas, principalmente das mulheres”, conta Cícera.
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Forró das mulheres e o vínculo com os usuários
Após o fim da pandemia, com questões de saúde mental muito urgentes, Cícera começou a organizar um forró das mulheres, uma vez por semana. “É o momento para a gente conversar, saber de alguma informação que, às vezes, no dia a dia, elas nem querem dizer muito, mas quando estão naquela brincadeira, acabam falando porque é um momento de diversão, de distração.”
O vínculo com o usuário é primordial para o trabalho do agente de saúde, e o forró das mulheres é um desses vínculos que Cícera criou em seu território. “Às vezes não é nem de atendimento [que as pessoas precisam], no caso de idosos, por exemplo. Às vezes as pessoas são carentes mesmo, elas querem conversar, elas querem uma companhia. Aí a gente demora mais um pouquinho.”
Já na UBS, Cícera e outras agentes dão prioridade para educação em saúde. “A gente faz teatro, faz brincadeira, eu me visto de velha para orientar sobre os cuidados com o aleitamento materno, me visto de homem para falar da saúde dos homens no Novembro Azul, e de palhaça na vacinação das crianças, e Outubro Rosa e a saúde da mama. Organizamos também alguns eventos para família tipo bazar beneficente, campanha de vestuário, de calçados para as crianças e até uma feira de mulheres empreendedoras.” As agentes trabalham tanto com as necessidades individuais, caso a caso, quanto com questões de saúde pública.
Cícera mora na região da Serra de São Domingos, que fica no distrito de Carrapateiras, 1 hora e 45 minutos da cidade, e seu território abriga 291 pessoas em 109 domicílios (eram 130 no começo).
Assista ao documentário Drauzio e os Agentes:
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