Há um burburinho cada vez mais ruidoso circulando nas redes sociais e no noticiário: o de que a dieta cetogênica pode ser uma ferramenta para ajudar no tratamento de transtornos mentais, como depressão, esquizofrenia e outros.
O falatório até que tem fundamento. Pesquisadores de universidades reconhecidas, como a Universidade Stanford, nos Estados Unidos, além de estudos publicados em revistas científicas de peso, como a JAMA Psychiatry, vêm encontrando resultados promissores sobre os possíveis benefícios da dieta.
Mas vale pisar no freio. Segundo especialistas, as pesquisas ainda são preliminares e estão longe de representar uma verdade absoluta. Embora alguns resultados chamem a atenção, essa relação ainda precisa ser vista com cautela. Antes de entrar nos detalhes, vale entender o que é exatamente a dieta cetogênica e por que ela pode estar associada a benefícios para o cérebro.
Como a dieta cetogênica funciona
As nossas células precisam de energia para funcionar. Essa energia vem dos alimentos. Em uma alimentação convencional, boa parte dela é obtida dos carboidratos — o pãozinho francês que você come pela manhã e o prato de arroz na hora do almoço, por exemplo. Durante a digestão, parte desses carboidratos é quebrada até dar origem à glicose, uma molécula usada como combustível pelo organismo.
A dieta cetogênica muda um pouco essa lógica. Em vez de obter a maior parcela da energia dos carboidratos, o organismo passa a depender principalmente da gordura. Para isso, a alimentação reduz o consumo de carboidratos e aumenta a ingestão de gordura, mantendo uma quantidade moderada de proteínas, presentes em alimentos como carnes, ovos, queijos e oleaginosas.
“Com menos glicose na corrente sanguínea, o fígado passa a transformar gordura em corpos cetônicos, que funcionam como uma fonte alternativa de energia, ou seja, ao invés de usar glicose, o corpo usa corpos cetônicos”, explica Fernanda Mattos, nutricionista, pós-doutora em bioquímica nutricional e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
A grosso modo, é como trocar o combustível do carro: sai a gasolina e entra o álcool.
É justamente nos corpos cetônicos que mora a hipótese dos possíveis benefícios para a saúde mental. Segundo a especialista, eles conseguem atravessar a barreira hematoencefálica — uma espécie de filtro que controla o que entra e o que sai do cérebro, como um segurança de balada — e podem influenciar o funcionamento das células cerebrais, dos neurotransmissores (os mensageiros químicos usados pelos neurônios para se comunicarem), da inflamação e do estresse oxidativo (desequilíbrio metabólico que causa danos às células).
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Por que a dieta cetogênica pode influenciar o cérebro
Existem algumas hipóteses sobre por que os corpos cetônicos — e, consequentemente, a dieta cetogênica — podem beneficiar a saúde mental. Uma das principais envolve dois neurotransmissores importantes para o funcionamento do cérebro: o glutamato, principal neurotransmissor excitatório, e o GABA, principal neurotransmissor inibitório. O desequilíbrio entre eles está associado a diversos transtornos mentais.
“Uma das hipóteses é que a dieta cetogênica favoreça um equilíbrio menos excitável das redes neurais, modificando o metabolismo desses neurotransmissores. Isso ajudaria a explicar parte de seu efeito anticonvulsivante e poderia ter relevância para sintomas de humor, impulsividade e psicose”, diz Arthur Danila, psiquiatra, coordenador do Programa de Mudança de Hábito e Estilo de Vida do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (IPq/HCFMUSP).
Outra hipótese é que os corpos cetônicos atuem sobre vias inflamatórias e mecanismos antioxidantes.
“Como processos inflamatórios parecem estar aumentados em certos subgrupos de pessoas com depressão, bipolaridade e esquizofrenia, essa é uma hipótese biologicamente plausível. Isso não significa, porém, que todo transtorno psiquiátrico seja uma doença inflamatória nem que a dieta funcione como um anti-inflamatório convencional”, afirma o médico.
Ele cita ainda outro possível mecanismo: a relação entre resistência à insulina, metabolismo cerebral e saúde mental. A dieta pode reduzir os níveis de insulina circulante e melhorar alguns marcadores metabólicos.
“Em estudos recentes com pessoas com transtornos psicóticos, a melhora metabólica ocorreu paralelamente à melhora de determinados sintomas, embora ainda não esteja demonstrado que uma seja necessariamente a causa da outra”, destaca Danila.
Por fim, existe uma quarta hipótese envolvendo o microbioma intestinal. Uma mudança alimentar, como a proposta pela dieta cetogênica, pode alterar a composição das bactérias intestinais e os metabólitos produzidos por elas. “Esses metabólitos podem influenciar imunidade, inflamação e comunicação entre intestino e cérebro. É uma área promissora, mas ainda muito experimental”, esclarece o médico.
O que dizem os estudos
Vários estudos foram publicados nos últimos anos investigando o efeito da dieta cetogênica em diferentes transtornos mentais, como depressão, ansiedade, transtorno bipolar e esquizofrenia. Cada um tem seus méritos, segundo os especialistas, mas também apresenta limitações. E, para algumas condições, os resultados ainda são pouco animadores.
Neste ano, por exemplo, a revista JAMA Psychiatry publicou uma revisão sistemática com metanálise que reuniu 50 estudos e mais de 41 mil participantes. Os pesquisadores concluíram que a dieta cetogênica pode ser uma estratégia complementar promissora para aliviar sintomas depressivos, especialmente quando há confirmação de cetose (ou seja, quando o organismo realmente passa a usar gordura como principal fonte de energia).
As evidências, porém, ainda não são suficientes para recomendá-la como tratamento padrão. E há um porém, segundo Danila. “Havia grande heterogeneidade: muitos participantes não tinham necessariamente transtorno depressivo maior, os protocolos alimentares variavam, os seguimentos eram curtos e parte da melhora poderia estar relacionada a perda de peso ou mudanças gerais de estilo de vida.”
No caso da ansiedade, avaliada na mesma revisão, os pesquisadores não encontraram benefício significativo da dieta cetogênica.
Sobre o transtorno bipolar, pesquisadores da Universidade de Edimburgo, na Escócia, publicaram, em 2025, um estudo-piloto sugerindo que a dieta cetogênica pode trazer benefícios metabólicos e apresentar efeitos promissores sobre alguns sintomas. Foram acompanhadas 27 pessoas, das quais 20 completaram entre seis e oito semanas de dieta. Os participantes apresentaram benefícios metabólicos, como perda de peso e redução da pressão arterial, além de indícios de melhora em aspectos como humor, energia, ansiedade e impulsividade.
Mas o estudo também teve limitações: não havia grupo-controle (ou seja, um grupo para comparação) e a amostra era pequena.
Outro estudo-piloto, publicado por pesquisadores de Stanford, nos Estados Unidos, em 2024, acompanhou durante quatro meses 23 pessoas com transtorno bipolar ou esquizofrenia que também apresentavam alterações metabólicas. Houve melhoras expressivas no peso e nos indicadores metabólicos. Entre os participantes com esquizofrenia, observou-se redução média de 32% na escala de sintomas psiquiátricos. Já entre aqueles com transtorno bipolar, 69% apresentaram melhora superior a um ponto na impressão clínica global.
Assim como o estudo de Edimburgo, no entanto, esse trabalho também não teve grupo-controle.
Em julho de 2026, pesquisadores publicaram o primeiro estudo em que pessoas com transtornos do espectro da esquizofrenia e transtorno bipolar tipo I foram divididas por sorteio em dois grupos: um seguiu a dieta cetogênica, enquanto o outro manteve a alimentação habitual. Ao todo, participaram 58 pessoas durante o primeiro mês e, depois, 25 continuaram na dieta por mais quatro meses. Houve melhora em indicadores de saúde, como peso, controle da glicose no sangue e resistência à insulina, além de indícios de melhora em alguns sintomas psiquiátricos e cognitivos, como atenção e memória.
“Contudo, uma parte relevante dos resultados psiquiátricos veio da extensão sem uma comparação randomizada equivalente, e a amostra permaneceu pequena. É um avanço importante, mas ainda não constitui uma demonstração definitiva de eficácia”, diz o psiquiatra.
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Afinal, vale ou não apostar na dieta cetogênica?
Os estudos publicados até agora sugerem que a dieta cetogênica tem sim potencial, principalmente como estratégia complementar para pacientes selecionados e acompanhados por uma equipe especializada, dizem os especialistas. Mas os resultados ainda são iniciais e precisam ser confirmados por pesquisas maiores e mais robustas.
“Ainda estamos em uma fase inicial das evidências científicas. Não é possível afirmar que a dieta trate ou cure transtornos psiquiátricos, e ela não deve ser utilizada para suspender antidepressivos, estabilizadores do humor ou antipsicóticos. Hoje, a posição mais segura é considerá-la uma intervenção experimental e complementar, não como um tratamento isolado”, afirma Mattos.
E tem outro ponto: a dieta cetogênica não é para todo mundo. Segundo a especialista, ela não é recomendada para pessoas com doenças que comprometem o metabolismo das gorduras, insuficiência hepática ou renal, pancreatite, histórico de transtornos alimentares ou durante a gestação. Quem faz uso de determinados medicamentos também precisa de uma avaliação individualizada antes de iniciar esse tipo de alimentação.
Pacientes com diabetes, especialmente aqueles que utilizam insulina ou medicamentos da classe dos inibidores de SGLT2 (usados para controlar a glicose no sangue), também exigem acompanhamento rigoroso, devido ao risco de hipoglicemia ou de cetoacidose (complicação metabólica grave).
Para Danila, no futuro próximo, o cenário mais provável é que a dieta cetogênica permaneça como uma abordagem complementar, voltada a grupos específicos de pacientes. De acordo com ele, existe, sim, a possibilidade de que ela passe a integrar o arsenal terapêutico da psiquiatria para alguns perfis de pacientes, desde que os resultados iniciais sejam confirmados.
“Para que a dieta deixe de ser experimental e passe a fazer parte das recomendações clínicas, serão necessários ensaios multicêntricos com centenas de pacientes, comparação com outras dietas saudáveis e igualmente acompanhadas, seguimento de pelo menos seis a 12 meses; avaliação de recaídas e hospitalizações; estudos de segurança cardiovascular, renal, óssea e nutricional; identificação de marcadores capazes de prever quem responde, entre outros”, finaliza.
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