Em junho deste ano, o Conselho Federal de Medicina (CFM) proibiu o uso de PMMA para fins estéticos ou reparadores em todo o Brasil. O PMMA, ou polimetilmetacrilato, é um polímero plástico, ou seja, um componente definitivo e inabsorvível pelo corpo.
Apesar de ser utilizado há décadas, o seu uso como preenchedor injetável e estimulador de colágeno vem causando complicações graves e relevantes. Isso porque o produto se infiltra nos tecidos musculares e pode causar uma resposta inflamatória severa, seja logo após a colocação ou muitos anos depois. Mesmo nas mãos de profissionais experientes, o produto pode desencadear reações imprevisíveis e de difícil controle.
O uso indiscriminado
Inicialmente, o PMMA era utilizado para a correção de deformidades e reconstrução de tecidos. Por exemplo, ao sofrer uma perda óssea no crânio, o paciente poderia colocar a substância como um molde – a princípio em peças sólidas e depois em aplicações injetáveis. Pacientes com traumas ou sequelas de poliomielite foram muito beneficiados pelo PMMA. Com o tempo, surgiram outras opções melhores para esses tratamentos.
Ao ser desenvolvido no formato de gel, o polímero passou a ser utilizado também como preenchedor, principalmente no rosto e nos glúteos.
“No corpo, as pessoas utilizam o produto como um estímulo de colágeno e uma forma de volumizar regiões como o glúteo ou áreas onde há flacidez de pele associada. Só que mesmo a aplicação um pouco mais superficial (não tão profunda quanto uma intramuscular ou subcutânea profunda, dependendo da concentração) também estimula a reação inflamatória”, alerta Marco Polo Rios, cirurgião plástico especialista em contorno corporal.
Complicações do PMMA
Entre as complicações decorrentes dessa reação, o PMMA está associado a:
- necrose da pele;
- inflamação granulomatosa (um tipo de inflamação específica quando há a presença de um corpo estranho);
- deformidades estéticas;
- migração do produto para outras áreas;
- insuficiência renal;
- infecção generalizada;
- morte.
Além disso, por ser um produto permanente, não existe outra substância que o degrade caso haja algum problema. Conforme a pessoa envelhece, o PMMA permanece no lugar e, dependendo da profundidade e da atrofia dos tecidos, começa a deformar a região de forma estigmatizante para o paciente. A única forma de remoção é através de cirurgias, que costumam ser mutilantes.
“A retirada dele é muito difícil, porque ele se infiltra nos tecidos. É praticamente impossível retirar todo o produto cirurgicamente porque ele fica como uma geleia lá dentro, como um câncer infiltrado. Para retirar todo o PMMA, você comprometeria, inclusive, os tecidos sadios”, afirma Fernando Mattioli, cirurgião plástico especialista em facelift.
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O que fazer após a proibição e quais são os usos autorizados
Desde 2013, o CFM já alertava para os riscos da substância, orientando que o seu uso deveria ser apenas em pequenas quantidades. Mesmo assim, o uso do PMMA seguiu amplo pelo Brasil. Uma revisão recente descobriu que, de 587 casos de complicações descritas na literatura médica nos últimos 20 anos, 64% deles aconteceram no país.
Hoje, após a proibição, a única exceção para o seu uso é no tratamento da lipodistrofia em pacientes com HIV, uma condição caracterizada pela perda anormal de tecido adiposo devido à infecção. Para procedimentos estéticos, as opções temporárias e biocompatíveis, como ácido hialurônico, ácido poli-L-lático (PLLA) e hidroxiapatita de cálcio (CaHA), são mais seguras.
Quem já realizou um procedimento estético com PMMA não precisa retirar a substância, mas deve ficar atento caso a região apresente vermelhidão, aumento de tamanho ou febre (independentemente de quanto tempo tenha passado da aplicação do produto). A ultrassonografia de alta frequência é o exame capaz de identificar a profundidade do produto e os sinais de uma possível inflamação.
Além disso, é fundamental não aplicar outros preenchedores na mesma região ou próximo ao PMMA antigo, pois isso pode “acordar” o sistema imunológico e desencadear um processo inflamatório tardio.
Importância da proibição e recomendações para tratamentos seguros
“A proibição do uso estético pelo CFM é um marco regulatório essencial. Ela retira o respaldo ético da aplicação do metacrilato, deixando claro para a sociedade que a comunidade médica não compactua com o uso de um material permanente para fins meramente cosméticos. Apenas 5% dos casos de complicações na literatura ocorreram no contexto da finalidade reconstrutora original; a esmagadora maioria decorreu do uso estético indiscriminado”, acrescenta Victor Bechara, médico dermatologista.
De acordo com o especialista, para garantir um tratamento estético seguro, é preciso:
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