A infertilidade pode ter diversas causas — tanto associadas à saúde feminina quanto à masculina. Estima-se que uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva tenha problemas de infertilidade ao longo da vida. Ou seja, trata-se de uma condição mais comum do que se imagina.
Em 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou sua primeira diretriz para prevenção, diagnóstico e tratamento da infertilidade. As recomendações reforçam a importância de uma investigação conjunta desde o início, além de destacar que buscar avaliação cedo faz diferença na chance de gravidez.
Sinais de alerta nas mulheres
“É importante começar desfazendo um mito: muitas mulheres com algum grau de dificuldade para engravidar não apresentam nenhum sintoma óbvio. A infertilidade, em grande parte dos casos, é silenciosa. Por isso, a investigação é guiada principalmente pelo tempo de tentativa sem sucesso”, afirma Silvana Quintana, coordenadora científica de obstetrícia da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp) e professora titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP).
Primeiramente, segundo a especialista, algumas condições ou sintomas prévios em mulheres já indicam a necessidade de investigação precoce, seja qual for a idade:
- ciclos menstruais muito irregulares ou ausentes (oligomenorreia ou amenorreia), que podem indicar problemas ovulatórios, como síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP) ou insuficiência ovariana prematura;
- dor pélvica intensa, especialmente associada à menstruação, que pode sugerir endometriose, uma importante causa de infertilidade;
- histórico de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) não tratadas ou doença inflamatória pélvica (DIP), pois aumentam o risco de comprometimento das tubas uterinas;
- histórico de cirurgias abdominais ou pélvicas anteriores;
- galactorreia (saída de leite sem estar amamentando), que pode indicar hiperprolactinemia, excesso de prolactina no sangue que interfere na ovulação;
- sintomas de alteração tireoidiana não investigados, como alterações de peso, mudanças de humor e cansaço excessivo, por exemplo.
Após quanto tempo de tentativas deve-se investigar a infertilidade?
A recomendação padrão é procurar uma avaliação médica após 12 meses de relações sexuais regulares sem uso de contraceptivos e sem gravidez, para mulheres com menos de 35 anos. Para mulheres acima dos 35 anos, esse prazo cai para seis meses.
“Para aquelas com 40 anos ou mais, ou com qualquer um dos sinais listados acima, a investigação deve ser iniciada imediatamente, sem espera. Isso porque a reserva ovariana, que corresponde tanto à quantidade quanto à qualidade dos óvulos disponíveis, diminui progressivamente com a idade, e essa queda se acelera após os 35 anos. Tempo é um fator que conta na fertilidade, e procrastinar a investigação pode reduzir as opções terapêuticas disponíveis”, esclarece a ginecologista.
Ela ressalta ainda que a infertilidade é uma condição médica, não uma falha pessoal. “Na maioria dos casos, há tratamentos eficazes disponíveis, mas quanto antes a investigação for iniciada, maiores as chances de sucesso.”
E os homens?
De acordo com Filipe Tenório, urologista e coordenador da disciplina de reprodução humana da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), em homens, alguns antecedentes também acendem um sinal de alerta para infertilidade:
- histórico de varicocele, criptorquidia (quando o testículo não desce adequadamente na infância), torção testicular ou trauma nos testículos;
- cirurgias na região inguinal ou escrotal;
- quimioterapia, radioterapia ou alterações no desenvolvimento dos órgãos genitais;
- histórico de uso de hormônios para indução da puberdade;
- testículos muito pequenos;
- alterações importantes de libido ou ereção;
- ejaculação com volume muito baixo ou ausente;
- irmãos ou familiares próximos com dificuldade para ter filhos.
“Outro grupo importante são os homens que usam ou já usaram testosterona e anabolizantes. Mesmo que sejam jovens e aparentemente saudáveis, eles podem ter uma redução importante da produção de espermatozoides”, alerta. “Quando existe algum desses fatores de risco, o ideal é não esperar muito tempo. O homem pode procurar um urologista antes mesmo de começar as tentativas ou logo no início do planejamento da gravidez”, completa o médico.
A idade do homem também conta?
Sim, a idade do homem faz diferença na fertilidade, embora o impacto seja bem menor do que o da idade feminina. Segundo o urologista, o homem continua produzindo espermatozoides ao longo da vida, mas isso não significa que a qualidade seja exatamente a mesma em todas as idades.
“Com o passar dos anos, pode haver uma redução da qualidade seminal, da motilidade dos espermatozoides e um aumento de alterações no DNA espermático. Homens acima de 40 anos podem demorar mais para conseguir uma gravidez. Alguns estudos mostram que homens com mais de 40 anos podem levar até quatro vezes mais tempo para engravidar quando comparados a homens com menos de 40”, esclarece Tenório.
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