Árbitra assistente em três Copas do Mundo Feminina, Tatiane Sacilotti sempre levou uma vida atlética. Isso não a impediu de lidar com dores na região pélvica desde a adolescência. Quando engravidou pela primeira vez, ela descobriu a causa: eram miomas, uma condição que fez com o seu útero quadruplicasse de tamanho após a gestação.
O tratamento envolve a retirada cirúrgica dos miomas e, em alguns casos, a do útero por completo. Após a chamada histerectomia, a mulher não pode mais engravidar e muitas relatam uma sensação psicológica de vazio. Esse não foi o caso de Tatiane. A sua médica a orientou a procurar outra solução: uma cirurgia minimamente invasiva.
Cirurgias minimamente invasivas são procedimentos característicos da radiologia intervencionista. Esse nome difícil se refere a uma especialidade médica que realiza cirurgias de diagnóstico e tratamento guiados por imagem. Assim, o paciente não precisa ficar internado e consegue se recuperar com muito mais facilidade.
O que quer dizer “minimamente invasivo”?
“Vamos supor que alguém tenha identificado um nódulo no fígado e precise colher material para saber o que é aquilo. Antigamente, o que era feito? Era realizada uma laparotomia. Abria-se a barriga, ia-se lá e tirava-se um pedaço [do nódulo]. Se fosse um câncer, tudo bem; mas se fosse uma doença benigna, abririam a barriga do mesmo jeito. Hoje, o que nós fazemos? Levamos o paciente para dentro de uma sala de tomografia, localizamos aquele ponto, entramos com uma agulhinha e tiramos um pedacinho desse tecido, sem que haja necessidade de abrir a barriga”, explica Luiz Grillo, diretor do Departamento de Intervenção Percutânea da Sociedade Brasileira de Radiologia Intervencionista e Cirurgia Endovascular (Sobrice).
No caso de Tatiane, uma pequena punção no punho foi o suficiente para introduzir um cateter e interromper o fluxo sanguíneo que alimentava os miomas. A embolização uterina, nome dado ao procedimento, faz com que os miomas diminuam progressivamente, enquanto o útero é completamente preservado.
Existem, hoje, duas modalidades da radiologia intervencionista:
- radiologia intervencionista vascular: cateteres induzidos por punção de uma veia ou artéria chegam ao órgão atingido e o tratam, como no caso da embolização uterina;
- radiologia intervencionista não vascular: agulhas e drenos especiais são introduzidos na pele com menor trauma e cicatrizes. Serve para destruir tumores pequenos por frio ou calor.
Tais procedimentos têm mudado o tratamento do câncer de fígado, rim, pulmão e tireoide, por exemplo, bem como o de doenças vasculares, miomas uterinos e hiperplasia benigna da próstata. Também trata complicações, permitindo controlar sangramentos tumorais por meio de cateterismo.
Vantagens para o paciente
“Na cirurgia convencional, o paciente é submetido ao procedimento e dali vai para a UTI. Ele ocupará esse leito da UTI por dois dias e um leito de enfermaria por mais cinco dias. Quando fazemos com a técnica percutânea, esse paciente não vai para a UTI e normalmente não precisa ficar internado. Ele fica no que chamamos de day clinic, por cerca de 4 a 6 horas, e recebe alta no mesmo dia”, destaca o especialista.
A técnica garante a autonomia do paciente, dribla o medo da mesa cirúrgica e reduz o risco de complicações, como fístulas, sangramentos, abcessos, entre outras. Após a embolização, Tatiane sentiu dores fortes. A reação, no entanto, é esperada e varia de pessoa para pessoa. Após alguns dias de recuperação, a dor passou e ela pôde voltar normalmente a sua rotina.
“Eu não esperava sentir dor e achei que o pós-operatório seria tranquilo. Mas, de fato, não há cortes, o que torna tudo mais simples nesse aspecto. Para você ter uma ideia, se eu pegasse peso ou tossisse, eu sentia dor no mioma. Hoje em dia, posso tossir e carregar peso normalmente sem sentir absolutamente nada”, relata a ex-árbitra.
Os benefícios também se estendem ao sistema de saúde, que consegue garantir a disponibilidade de mais leitos.
Registros de Tatiane durante o pré e pós-operatório. Créditos: Arquivo pessoal
“Em uma semana, conseguimos fazer, por exemplo, dez ablações com um único leito, ao passo que, se fôssemos fazer a cirurgia convencional, seria realizada apenas uma cirurgia com esse leito disponível”, compara Grillo.
Veja também: Cuidados no pós-operatório são essenciais para o sucesso do procedimento
Onde encontrar a radiologia intervencionista no país?
No Brasil, a área de atuação ainda é recente e a formação não está presente de forma igualitária em todas as regiões do país. Segundo a Demografia Médica de 2025, existem apenas 366 médicos com certificação nessa área de atuação, e a maioria está concentrada na Região Sudeste, especialmente no estado de São Paulo.
O Einstein Hospital Israelita, em São Paulo (SP), por exemplo, é referência em boas práticas para serviços de radiologia intervencionista na América Latina. O hospital realiza procedimentos para câncer de mama, próstata, rim, ossos e pulmão, além do mioma uterino.
“Ainda circulam informações desatualizadas, como a ideia de que a embolização seria experimental, aplicável apenas a miomas pequenos ou necessariamente prejudicial ao útero. Na realidade, é uma técnica utilizada há décadas, respaldada por evidências científicas e reconhecida por entidades médicas nacionais e internacionais”, destaca Felipe Nasser, médico assistente do Centro de Medicina Intervencionista do Einstein.
O A.C. Camargo, também na capital paulista, é outro hospital que se destaca nesse cenário, oferecendo biópsias percutâneas, drenagens, radioablação, crioablação e outros procedimentos.
“Discutimos os casos dos pacientes em uma reunião multidisciplinar, chamada de tumor board. A decisão para aquele paciente será compartilhada por um grupo de profissionais que julgará a situação e entenderá qual é a melhor opção de tratamento. Isso elimina o viés de seleção do médico indicar apenas o que sabe fazer, pois todos estarão presentes na discussão para expor os prós e contras”, detalha Charles Zurstrassen, head do Departamento de Radiologia Intervencionista do A.C.Camargo.
Procedimento de radioembolização para tratamento de paciente com câncer de fígado. Créditos: Arquivo pessoal via assessoria de imprensa
Ainda hoje, é comum que a radiologia intervencionista seja desconhecida por médicos de outras especialidades, que transmitem a desinformação aos pacientes. Sem ter ideia de que podem ter acesso a esse tipo de tratamento, muitas pessoas se submetem a cirurgias extensas e de difícil recuperação.
Na rede pública, o acesso também precisa avançar
Em dezembro de 2024, seis procedimentos cirúrgicos minimamente invasivos foram incorporados à Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer (PNPCC) no SUS. Mas, desde então, ao considerar o tratamento de ablação (destruição por calor) para câncer de fígado, por exemplo, apenas 439 pacientes se beneficiaram do procedimento. A título de comparação, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que os novos casos de câncer hepático entre 2025 e o final de 2026 chegará a mais de 23 mil.
“Mesmo com dois anos de aplicação da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer, o número de pacientes para a realização do procedimento minimamente invasivo hoje é muito pequeno, muito distante de onde deveria estar”, avalia Cláudio Henrique Côrrea, especialista em Inteligência em Saúde, Políticas Públicas e Evidências do Mundo Real aplicadas ao SUS.
Para o especialista, não é apenas uma questão de custo, já que as cirurgias minimamente invasivas já se provaram custo-efetivas para o sistema. O problema está na demora de dois, três ou até quatros anos para que o paciente tenha acesso com equidade a tratamentos que já foram incorporados pelo Ministério da Saúde.
Hoje, no Brasil, o câncer de pulmão é o segundo mais letal, seguido do câncer colorretal. Juntos, eles somam mais de 50 mil mortes por ano, as quais, em alguns casos, poderiam ser evitadas com cirurgias minimamente invasivas já disponíveis no sistema.
“Hoje, o que funciona é a ação individualizada da unidade hospitalar. As secretarias estaduais e municipais não atuam muito nessa ação direta de fazer com que as inovações tecnológicas sejam aplicadas dentro do estado ou do município. Seriam necessários programas específicos, organizados e estruturados pelo Ministério da Saúde, mas que conversassem com os estados e municípios, para essa adesão e implementação”, opina Côrrea.
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