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Quinta-feira, 30 de Julho 2026
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Uma fiscal contra o crime: o dia a dia no Parque Nacional do Pau-Brasil

Parque, no litoral da Bahia, se tornou o epicentro de um esquema de contrabando internacional de madeira

Portal MAM News
Por Portal MAM News
Uma fiscal contra o crime: o dia a dia no Parque Nacional do Pau-Brasil
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Na chamada “Costa do Descobrimento”, no sul da Bahia, a imagem que se impõe a quem pesquisa o destino ou chega para passar férias é a de praias paradisíacas, coqueiros, resorts de luxo e destinos badalados como Trancoso e Caraíva, frequentados por influenciadores digitais e celebridades.

Mas, por trás desse cartão-postal, desenha-se um mapa de conflitos complexo. A região de Porto Seguro é, há décadas, marcada por disputas territoriais entre povos indígenas e fazendeiros — e, mais recentemente, passou a figurar no noticiário policial como palco de confrontos armados entre facções criminosas, como o Comando Vermelho e a Polícia Militar da Bahia.

Em meio a esse cenário conflagrado, três parques nacionais se impõem na paisagem dominada pelo turismo: o Parque Nacional do Descobrimento, o Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal e o Parque Nacional do Pau-Brasil. Juntas, essas unidades de conservação preservam fragmentos de um Brasil anterior à chegada dos portugueses e oferecem um vislumbre cada vez mais raro do que ainda resta da Mata Atlântica.

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Nem mesmo esses territórios protegidos por lei escapam às atividades ilícitas. Aline Polli, que aparece na imagem que abre esta reportagem, é a chefe do parque e analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Ela afirma que os conflitos da região frequentemente transbordam para a unidade. “Esses grupos usam o parque como rota de passagem ou, por ser uma área mais remota, para desovar corpos. Já encontramos cadáveres e tivemos de acionar o Instituto Médico Legal (IML). São muitas as demandas para administrar um território desse tamanho”, relata.

11 de junho de 2025. Guardas do Parque Pau-Brasil, em Porto Seguro, Bahia, Brasil, examinam marcas recentes de carros, motocicletas e bicicletas que não estavam presentes no dia anterior. Antes de entrar na floresta, eles inspecionam cuidadosamente o solo em busca de sinais de possíveis madeireiros ilegais. O que mais os alarma é que as marcas parecem ter menos de meia hora, sugerindo que os responsáveis ainda podem estar dentro do parque. Porto Seguro, Bahia: brigadistas inspecionam o solo em busca de sinais de possíveis madeireiros ilegais

O crime ambiental soma-se à caça e à extração ilegais de madeira, às ameaças e aos ataques contra servidores e moradores, bem como às disputas fundiárias. Relatórios das operações Dó Ré Mi, do Ibama, e Ibirapitanga I e II, da Polícia Federal, obtidos pela Agência Pública, indicam que parte do pau-brasil utilizado por décadas por fabricantes de arcos de violino no Espírito Santo foi extraída ilegalmente do interior do parque de 19 mil hectares, o que equivale a 2,5 vezes o tamanho do município de Vitória, no Espírito Santo.

Para vigiar o território reconhecido como Patrimônio Natural Mundial pela UNESCO, o ICMBio mantém cinco analistas ambientais no local — mas apenas três estão em atividade — e apenas Polli como fiscal. Diante da falta de pessoal, a servidora acumula funções e precisa conciliar a gestão da unidade com as ações de fiscalização. “Estou sozinha na fiscalização, e sigo tentando obter mais apoio”, explica.

A equipe conta ainda com nove brigadistas terceirizados e, na maior parte do tempo, dispõe de apenas um veículo em funcionamento. “É mata atlântica indo para o chão em pleno apocalipse climático”, desabafou a servidora.

É nesse cenário de escassez de pessoal e de estrutura que sobrevivem alguns dos últimos exemplares de pau-brasil no planeta — espécie ameaçada de extinção desde 1992 e que, por falta de recursos humanos e tecnológicos, ainda não pôde ser quantificada com precisão na unidade. Ainda assim, sabe-se que o parque abriga hoje o maior reduto da espécie nativa no mundo.

“Eu não vejo uma preocupação real dos governantes em preservar o que restou da Mata Atlântica, e menos ainda com o pau-brasil. Apesar de ter sido muito mais impactado, o bioma recebe bem menos holofotes do que a Amazônia. A Amazônia concentra hoje a maior parte da atenção nacional e internacional — é a menina dos nossos olhos. É claro que ela é um bioma importantíssimo e ameaçado, mas a Mata Atlântica foi historicamente muito mais degradada, e hoje não estamos dando conta de proteger nem o que restou dela”, afirma Polli. De acordo com um levantamento de 2023 da Fundação SOS Mata Atlântica, restam apenas 24% da cobertura original do bioma.

10 de junho de 2025. Dentro do pequeno museu do Parque Pau-Brasil, no sul do estado da Bahia. Algumas das primeiras caravelas dos colonizadores transportaram pau-brasil para Portugal, e seu corante tornou-se um ingrediente-chave para colorir tecidos, roupas e pinturas. Só no fim do século XVIII, luthiers europeus perceberam que poderiam utilizá-lo para fabricar arcos de instrumentos incrivelmente resistentes e com grande capacidade de vibração. 10 de junho de 2025. Interior do pequeno museu do Parque Nacional do Pau-Brasil, no sul do estado da Bahia

O parque também enfrenta a caça e o tráfico ilegal de espécies nativas — pássaros, paca, tatu, cotia e veados —, práticas que reduzem as populações de fauna, desequilibram as cadeias ecológicas e comprometem a regeneração natural da floresta. Os infratores raramente enfrentam punições efetivas. Em geral, recebem multas que, segundo Polli, quase nunca são pagas. “No Brasil, o crime ambiental compensa”, lamenta a servidora, que explica que o entorno do parque ainda enfrenta a especulação imobiliária crescente. “Estou passando por situações horríveis de extração de areia e de madeira no entorno. É um cenário de guerra”, afirma.

Latifúndios de monocultura de eucalipto, café, cacau, mamão e pimenta-do-reino rodeiam o território, ameaçando as espécies nativas. O risco é múltiplo: o uso de agrotóxicos que escorrem pelo solo e contaminam a área protegida; a degradação do entorno; e a ação de aves que transportam sementes de espécies exóticas para o interior do parque — um território originalmente composto exclusivamente por Mata Atlântica nativa.

Caravela é o símbolo colonial do parque

Quem chega ao Parque Nacional do Pau-Brasil, após percorrer quilômetros de monoculturas ainda visíveis pela estrada, encontra um pequeno centro de visitantes. Ali, uma sala convida o público a conhecer a história da madeira que deu nome ao país. A exposição reconstitui, com ilustrações, objetos e painéis informativos, os ciclos de exploração da espécie — do uso como corante têxtil no período colonial à fabricação de arcos de violino a partir do século XIX. Um dos painéis destaca que grandes orquestras sinfônicas, em várias partes do mundo, ainda utilizam arcos de pau-brasil.

No mesmo centro de visitantes, um detalhe chama a atenção: a logomarca do parque nacional. A imagem mostra uma caravela navegando no mar e, na vela da embarcação, a folha do pau-brasil — um símbolo da exploração portuguesa que ainda hoje estampa o próprio cartão de visitas da unidade de conservação.

O logo do parque mantém a caravela portuguesa. Um processo participativo quer mudá-lo

“Essa logo é, para mim, a coisa mais violenta que poderia existir. Ela simboliza que até hoje continuam levando o pau-brasil embora. Levaram nossos recursos, o conhecimento tradicional, a tintura. Hoje valorizam a madeira na música clássica, mas de forma predatória: extraem a matéria-prima do Brasil e nos mantêm em posição colonial. O bem manufaturado fica lá fora. Seguimos numa posição de colônia e nossas vidas seguem em risco por conta dessas atividades ilegais”, diz Polli. A chefe do parque articula uma votação online para renovar a logomarca — mas a imagem oficial, por ora, permanece a mesma.

A caravela na logomarca pode ser apenas uma imagem. Mas a poucos quilômetros do centro de visitantes, na mata fechada do parque, os sinais de que o pau-brasil continua sendo levado embora são concretos e recentes.

O que resta na floresta

Depois da visita ao centro de visitantes, a equipe de reportagem da Pública saiu com brigadistas do ICMBio para percorrer o parque em busca de sinais de extração de pau-brasil. Segundo eles, flagrantes desse tipo tornaram-se cada vez mais raros desde 2019 — assim como a própria comercialização da espécie na região, atividade que, de acordo com os brigadistas, arrefeceu após as operações Dó Ré Mi e Ibirapitanga.

Essas investigações, conduzidas entre 2018 e 2022 pelo Ibama e pela Polícia Federal, resultaram no indiciamento de 32 pessoas e na apreensão de mais de 230 mil varetas de pau-brasil, mais de 11 mil metros cúbicos de ripas e 321 toretes brutos. Parte desse material, segundo os relatórios, havia sido extraída ilegalmente do interior do próprio parque — documentada com registros falsos para parecer legal. “Os investigados inseriam informações falsas no sistema de registro de estoques florestais para tentar esquentar essa madeira e, assim, manufaturá-la ou exportá-la ilegalmente”, explica André Pimentel Filho, procurador da República no Espírito Santo.

11 de junho de 2025. Guardas do Parque Pau-Brasil, em Porto Seguro, Bahia, Brasil, inspecionam um enorme pequizeiro (Caryocar edule), estimado em cerca de 600 anos, que havia sido derrubado ilegalmente semanas antes. O tronco, ainda intacto sobre o solo da floresta, tem quase a altura de um adulto. Os guardas já haviam documentado a árvore após o corte, quando ela foi deixada no local. Assim como o pau-brasil e outras madeiras de alto valor, o pequi é grande demais para ser removido de uma só vez; madeireiros ilegais costumam derrubar a árvore primeiro — muitas vezes à noite ou quando os poucos fiscais do parque estão fora de serviço — e depois retornam para cortar o tronco em partes menores, facilitando o transporte e a venda. Os guardas acreditam que os responsáveis podem ter estado no local menos de uma hora antes da nossa chegada. Um enorme pequizeiro, com idade estimada em 600 anos, foi derrubado ilegalmente. O tronco segue intacto sobre o solo da floresta

Os brigadistas conduziram a reportagem a alguns pontos onde árvores haviam sido derrubadas anos atrás. Ainda era possível ver troncos e raízes cortados, além de fragmentos de madeira deixados para trás. No trajeto de volta, um enorme tronco de pequizeiro havia sido abatido recentemente. Segundo os brigadistas mais experientes, a árvore tinha mais de 600 anos. O tronco, ainda inteiro e deitado no chão, atingia quase a altura de um adulto em pé.

Os brigadistas explicaram que já o haviam avistado — a árvore fora derrubada semanas antes e permanecia ali, aparentemente abandonada. Durante a expedição, os brigadistas, até então descontraídos, ficaram tensos e recomendaram que deixássemos o local. O motivo eram marcas recentes de pneus na terra e sinais claros de atividade de corte. Sem porte de armas e frequentemente alvo de ameaças, os brigadistas não conseguem fazer frente ao crime. “Os caras ainda devem estar por aqui”, alertou Hugo Silva, chefe do esquadrão de brigadistas do ICMBio — nome fictício, adotado por razões de segurança.

Assim como o pau-brasil e outras madeiras nobres, o pequizeiro era grande demais para ser transportado de uma só vez. O método dos madeireiros ilegais costuma seguir um padrão: primeiro, derrubam a árvore — preferencialmente de madrugada ou nos dias de folga dos fiscais. Depois, retornam para serrar o tronco em partes menores, mais fáceis de carregar e de comercializar.

19 de junho de 2025. Armazenamento de madeira do parque pau-brasil para a fabricação de arcos de violino na histórica empresa Horst John, em Guaraná, Aracruz, Espírito Santo, Brasil. O empresário alemão Horst Ewald Gunther John é reconhecido como o iniciador da tradição brasileira de fabricação de arcos. Após sua morte, em 1997, a propriedade passou para Jacy de Souza. O local inclui uma igreja com piso de pau-brasil e mais de 11 mil árvores de pau-brasil plantadas desde a década de 1980. O ateliê permanece inativo devido a preocupações com a fiscalização e o cumprimento da legislação. Estoque de madeira de pau-brasil destinado à fabricação de arcos de violino na histórica empresa Horst John, em Guaraná, Aracruz

Ao fim do dia, Polli mostrou à equipe de reportagem pilhas de tocos de pau-brasil e de outras madeiras nobres, cortados e encontrados ao longo dos últimos anos pelos funcionários do parque na mata. A extração do pau-brasil cessou no parque devido à visibilidade gerada pelas operações do Ibama e da Polícia Federal — mas a exploração ilegal de madeira persiste. Só mudou o alvo. “O parque é grande demais para pouquíssimos funcionários. A gente tenta manter vigilância constante, faz rondas, observa pegadas, marcas de pneus, vestígios de trilhas abertas. Mas é impossível controlar tudo”, diz Polli.

O pau-brasil pode ter saído do radar dos madeireiros ilegais momentaneamente — mas, no parque que leva seu nome, a floresta segue sendo devorada em silêncio.

FONTE/CRÉDITOS: Augusta Lunardi

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