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Segunda-feira, 21 de Setembro 2026
Saúde

Como acolher pessoas em processo de luto na jornada do câncer

Empatia, escuta e presença sensível são elementos fundamentais para apoiar pessoas enlutadas. Especialistas falam sobre o luto antes e depois da morte. The post Como acolher pessoas em processo de luto na jornada do câncer first appeared on Portal Drauzio Varella.

Portal MAM News
Por Portal MAM News
Como acolher pessoas em processo de luto na jornada do câncer
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Todos os anos, morrem mais de 200 mil pessoas no Brasil em decorrência do câncer, de acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca). A doença é a segunda causa de morte no país, aproximando-se cada vez mais das doenças cardiovasculares, historicamente a causa número um.

O câncer é uma doença complexa. Em muitos casos, exige tratamentos longos e invasivos, como cirurgias, quimioterapia, radioterapia, entre outros. Geralmente, altera toda a rotina do paciente e de seus familiares. O luto, nesse cenário, nem sempre está relacionado à morte, mas à vida de antes do diagnóstico.

É importante apoiar a pessoa que está passando pelo tratamento durante todas as etapas da jornada, inclusive quando não há mais chance de cura. 

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E quando o desfecho é, de fato, o óbito, é preciso também acolher quem ficou: respeitar o tempo de cada um e compreender que o luto é um processo único e que não há um jeito certo de vivenciá-lo pode ser um primeiro passo. 

 

Por que o luto não é diz respeito apenas a morte

Segundo Erika Pallottino, psicóloga clínica especialista em luto, o diagnóstico oncológico já inicia um processo de luto: não necessariamente por ser uma doença grave, mas por impor importantes transformações à vida da pessoa. 

Mudanças nos hábitos e na rotina, perda de autonomia, alterações nos papeis familiares, perda da fertilidade, menopausa precoce e questões ligadas à sexualidade, por exemplo, são comuns durante a trajetória do paciente oncológico. 

“Com isso, a gente perde o nosso status de saudável, a nossa sensação de controle, previsibilidade, conhecimento sobre o próprio corpo e sobre a própria saúde. E o luto é uma ruptura que mexe com os nossos organizadores mentais, sociais e afetivos”, afirma.

Esse luto acompanha a experiência do câncer e merece reconhecimento e acolhimento. Para a especialista, a rede de apoio e a relação com a equipe de saúde podem ajudar no processo de enfrentamento e adaptação à doença. 

“Diante de um diagnóstico de gravidade, o sofrimento não se limita à perspectiva de morte. Ele se manifesta em diversas formas de perda que afetam profundamente o paciente e os que o cercam. Acolher essas emoções ao longo da jornada pode evitar que esse sofrimento se intensifique”, completa Sarah Ananda, líder nacional da especialidade de cuidados paliativos da Oncoclínicas.

 

O processo de fim da vida

Quando um paciente com câncer caminha para o processo de fim de vida, os familiares e amigos precisam lidar com os seus próprios sentimentos sobre a perda ao mesmo tempo em que acolhem a pessoa que está doente. 

Segundo a psicóloga, não há uma orientação que caiba para todos, pois esse costuma ser um momento de muita complexidade, conflitos e sentimentos que podem emergir de forma mais profunda. Cada história tem suas particularidades. 

Mas é importante estar presente de forma empática, sem julgamentos e imposições, e não levar questões que possam intensificar a angústia ou o mal-estar do paciente. “Não é qualquer pessoa que consegue estar nesse lugar. Por isso, vínculos de confiança e seguros são os mais recomendados para um paciente que enfrenta terminalidade de vida”, explica Pallottino. 

As pessoas próximas passam por um processo que por um lado é coletivo, por estarem enfrentando essa perda em comum; mas também individual, devido ao vínculo pessoal com a pessoa que está falecendo. Por isso, buscar apoio profissional ou na sua própria rede de relações pode ajudar a diminuir a angústia e a ansiedade.

Nesse contexto, os cuidados paliativos têm papel importante. Mais do que um complemento ao tratamento do câncer, eles buscam minimizar o sofrimento e promover o respeito à pessoa em sua totalidade. 

“Nosso trabalho é cuidar com sensibilidade e humanidade, reconhecendo que o sofrimento não é apenas físico, mas também emocional, social e espiritual. Essa atenção integral prepara tanto o paciente quanto seus familiares para lidarem com as perdas de forma mais serena”, detalha Ananda.

Veja também: O que são cuidados paliativos e como eles funcionam? – DrauzioCast #219

 

É normal ter sentimentos conflitantes diante do luto

O luto pode envolver uma série de sentimentos complexos e que por vezes podem parecer contraditórios, como medo, tristeza, raiva, alívio, culpa, entre outros. 

Pallottino explica que, inicialmente, normalmente ocorre um processo de luto agudo que provoca uma disrupção em diversos sistemas do nosso funcionamento cognitivo, afetivo, social e espiritual. 

“Então, é comum a gente sentir ambivalência. Essa sensação que é conflituosa, sim, de um alívio ou até de um desejo que tudo termine, não para que a pessoa vá embora, mas para que o sofrimento de todos seja minimizado. É um quadro emocional comum nesses tipos de cenários, porque ser espectador do sofrimento de quem a gente ama é muito difícil”, afirma.

Para Cristiane Bergerot, psico-oncologista e líder nacional de especialidade equipe multidisciplinar da Oncoclínicas, não existe um jeito certo ou errado de sentir. “A tristeza, o silêncio, a raiva, o medo ou até a culpa podem aparecer — e tudo isso é válido. O mais importante é que essas emoções sejam acolhidas, sem pressa e sem julgamentos”, explica.

É importante ter generosidade e compaixão com o próprio processo, que pode demorar, pois não há um tempo determinado para viver a dor da perda de um ente querido. Trata-se de algo muito particular e não uma barreira a ser “vencida” ou “superada”, simplesmente.

 

Como apoiar a pessoa enlutada

O acolhimento é essencial para quem está vivendo o luto, mas muitas vezes as pessoas próximas não sabem como ajudar. Ao apoiar alguém em sofrimento, estar presente e ouvir com atenção pode ser mais importante do que tentar “dizer a coisa certa”. 

“Muitas vezes, quem enfrenta uma perda se vê isolado, não por falta de carinho, mas porque as pessoas ao redor nem sempre sabem o que dizer ou como agir. Nesses momentos, a escuta atenta, o silêncio respeitoso e a presença genuína são gestos simples, mas profundamente reconfortantes”, explica Bergerot.

Para Ananda, o acolhimento vai além do apoio emocional imediato. “Ele ajuda a construir um espaço seguro onde a pessoa pode vivenciar suas emoções de forma autêntica e gradual”, destaca. 

Entre as orientações, Pallottino destaca a importância de respeitar a autonomia da pessoa enlutada, permitindo que ela encontre os seus caminhos, além de validar os seus sentimentos, evitando falar coisas para tentar “consertar” sua dor ou dizer que é errado sentir determinada emoção. 

Outro ponto importante é ajudar com recursos. Ações práticas do dia a dia podem fazer a diferença. Por exemplo, se você tem um filho que estuda na mesma escola que o filho da pessoa, você pode oferecer uma carona, ou levá-lo para almoçar depois da aula. Outras medidas possíveis são preparar refeições ou auxiliar com alguma tarefa da casa. 

De tempos em tempos, também vale perguntar se a pessoa precisa de ajuda. “É uma presença ativa sem ser invasiva. Isso precisa de sensibilidade e cuidado. É muito comum que na tentativa de ajudar, a gente invada essa história achando que sabe o caminho, que é um caminho absolutamente da outra pessoa”, afirma a especialista. 

 

Quando buscar ajuda especializada

É importante buscar um suporte de saúde mental nos casos de luto quando a pessoa identifica que o sofrimento está além do que aquela consegue suportar, causando disfuncionalidade em diversas áreas da vida, como trabalho, relações pessoais, dificuldades no sono e na alimentação, por exemplo. 

Segundo Pallottino, os estudos mostram que a comunidade e a rede de apoio têm uma força importante na reconstrução da pessoa enlutada. Quando não há esse suporte, existe um risco para complicações do luto.

“E existem questões que envolvem transtornos emocionais ou vulnerabilidades emocionais prévias à história de luto. Então, alguém que tem uma história de depressão importante, que tem questões associadas a risco emocional, muitas vezes vai precisar de um suporte psicológico específico e especializado em luto”, conclui a psicóloga.

Veja também: Luto prolongado é considerado um transtorno mental

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FONTE/CRÉDITOS: Maiara Ribeiro

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