Descrita pela primeira vez em 1922 por dois pediatras norte-americanos, a síndrome de Stevens-Johnson é uma reação inflamatória rara e grave que afeta a pele e as mucosas, como as da boca e dos olhos. Geralmente desencadeada por medicamentos, pode provocar bolhas, feridas dolorosas e descamação da pele.
A condição é uma emergência médica que exige diagnóstico e tratamento imediatos, pois pode colocar a vida do indivíduo em risco.
“A evolução pode ser rápida, em questão de horas ou poucos dias. Por isso, o aparecimento desses sintomas, principalmente após o início recente de um medicamento, exige avaliação médica imediata”, explica Natália Trevizoli, hepatologista do Hospital Sírio-Libanês.
A gravidade é classificada de acordo com a extensão do descolamento da pele. Quando afeta menos de 10% da superfície corporal, o quadro é chamado de síndrome de Stevens-Johnson. Acima de 30%, recebe o nome de necrólise epidérmica tóxica.
Sintomas e sinais de alerta
Os primeiros sintomas da síndrome de Stevens-Johnson podem ser semelhantes aos de uma gripe, com febre e mal-estar. Depois, aparecem lesões na pele e nas mucosas, que podem se espalhar rapidamente. Os principais sinais incluem:
- febre alta, dor de garganta, tosse e dores nas articulações;
- manchas avermelhadas ou arroxeadas na pele, que podem ser dolorosas e evoluir para bolhas e descamação;
- bolhas e feridas na boca e nos lábios, que podem dificultar e tornar doloroso engolir;
- lesões nos olhos, acompanhadas de dor, sensibilidade à luz e alterações na visão;
- dor ao urinar, quando há lesões na região genital ou no trato urinário;
- diarreia e vômitos;
- dificuldade para respirar e chiado no peito.
Causas e medicamentos que provocam reação
A síndrome de Stevens-Johnson é geralmente desencadeada por uma reação grave e imprevisível a determinados medicamentos.
“A reação geralmente ocorre nas primeiras semanas após o início do medicamento, embora o intervalo possa variar. É importante destacar que a síndrome é rara e pode ocorrer mesmo quando o medicamento é utilizado corretamente, nas doses recomendadas”, afirma Trevizoli.
Entre os principais grupos associados à condição, estão:
- anticonvulsivantes, usados no tratamento da epilepsia;
- analgésicos, que servem para aliviar a dor;
- antirretrovirais, utilizados no tratamento de infecções virais;
- anti-inflamatórios, indicados para aliviar dores e inflamações;
- antibióticos, usados contra infecções bacterianas;
- medicamentos para tratar gota.
Em alguns casos, a síndrome também pode estar relacionada a infecções, principalmente as causadas por determinados vírus. Algumas condições podem aumentar a predisposição, como ter o sistema imunológico comprometido por HIV, câncer ou doenças autoimunes.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico é feito com base na avaliação das lesões, no exame das mucosas e no histórico de uso de medicamentos. Como a síndrome pode evoluir rapidamente, reconhecer os sinais e iniciar o tratamento sem demora é fundamental.
Exames de sangue e urina podem ajudar a avaliar o estado geral do paciente e identificar possíveis complicações. A biópsia de pele também pode auxiliar na confirmação do diagnóstico e na diferenciação de outras doenças.
Tratamento da síndrome de Stevens-Johnson
O tratamento exige internação hospitalar, suspensão do medicamento suspeito e cuidados com a pele e as mucosas. Também pode incluir hidratação, controle da dor e monitoramento de complicações, como infecções e danos aos órgãos.
A avaliação oftalmológica precoce também é essencial, mesmo quando os sintomas nos olhos parecem leves, para identificar lesões que possam comprometer a visão.
“Nos casos mais graves, com descolamento extenso da pele, o paciente precisa de internação em UTI, com cuidados semelhantes aos oferecidos a pacientes com queimaduras. A perda da proteção da pele aumenta o risco de infecções e complicações”, explica Jade Cury, dermatologista e presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia – Regional São Paulo (SBD-SP).
Risco de morte e possíveis sequelas
A síndrome de Stevens-Johnson pode comprometer órgãos como fígado, rins e pulmões e, nos casos mais graves, levar à morte, especialmente quando há infecções graves ou falência de órgãos.
“As principais sequelas incluem alterações na pigmentação da pele, como manchas escuras ou claras, e cicatrizes. Nos olhos, podem ocorrer úlceras na córnea e perda de visão. Já na região genital, podem surgir aderências que provocam estreitamento ou obstrução da uretra ou da vagina”, explica Cury.
Além das complicações físicas, a síndrome pode afetar a saúde mental, causando ansiedade e sintomas de estresse pós-traumático.
Após a alta, o paciente pode precisar de acompanhamento com diferentes especialistas, como dermatologistas, oftalmologistas e ginecologistas, além de cuidados específicos com a pele e as mucosas.
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